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OCDE

Local File: o guia direto para entender o Arquivo Local

  • 05/08/2026
  • Silvio Petrini

Se a sua empresa faz operações com partes relacionadas no exterior, o Local File é provavelmente o documento de preços de transferência que mais vai importar no dia a dia.

Ele é o retrato detalhado da entidade brasileira e das transações que ela realiza dentro do grupo, e no Brasil deixou de ser recomendação internacional para se tornar obrigação concreta desde 1º de janeiro de 2024.

Neste artigo você vai entender, de forma direta, o que é o Local File, a diferença entre a versão completa e a simplificada nos termos da IN RFB nº 2.161/2023, quando entregá-lo em 2026 e o que precisa estar dentro dele.

O que você vai encontrar

  • O que é o Local File (Arquivo Local)
  • Quem é obrigado: os três limites
  • Arquivo Local simplificado x completo: a diferença na prática
  • Prazo de entrega em 2026
  • Como o Local File é entregue
  • O que precisa estar dentro do Local File
    • Informações sobre a entidade local
    • Informações por categoria de transação controlada
    • Informações financeiras de suporte
    • Pontos de atenção ao preparar o Local File
  • Conclusão

O que é o Local File (Arquivo Local)

O Local File, ou Arquivo Local, é o documento de preços de transferência que foca em uma única entidade legal dentro de um país específico.

Enquanto o Master File olha o grupo multinacional de cima, o Arquivo Local desce ao detalhe: descreve cada categoria de transação controlada realizada pela empresa local e demonstra que os preços praticados seguem o princípio arm’s length (plena concorrência).

Ele faz parte do modelo de documentação em três níveis criado pela Ação 13 do projeto BEPS da OCDE, ao lado do Arquivo Global (Master File) e da Declaração País-a-País (Country-by-Country Report). As Diretrizes de Preços de Transferência da OCDE definem o conteúdo mínimo esperado.

Quem é obrigado: os três limites

Com a Lei nº 14.596/2023 e a IN RFB nº 2.161/2023, o Brasil passou a exigir o Arquivo Local das empresas que ultrapassam determinados limites de transações controladas com partes relacionadas no exterior.

As regras são obrigatórias desde 1º de janeiro de 2024, então não se trata mais de um cenário futuro: é a realidade atual do compliance tributário.

O enquadramento considera o total de transações controladas no ano-calendário anterior, antes dos ajustes de preços de transferência:

Total de transações controladasObrigaçãoBase na IN 2.161/23
Igual ou acima de R$ 500 milhõesArquivo Local completoArt. 57, inciso I
De R$ 15 milhões a R$ 500 milhõesArquivo Local simplificadoArt. 57, inciso II
Abaixo de R$ 15 milhõesDispensa do Arquivo LocalArt. 57, inciso III

Atenção: mesmo quem está dispensado do Arquivo Local continua sujeito ao princípio arm’s length e deve preencher os registros de preços de transferência na ECF.

Arquivo Local simplificado x completo: a diferença na prática

Essa é a dúvida mais comum de quem está começando. Os dois têm o mesmo objetivo, demonstrar que os preços seguem o princípio arm’s length, mas mudam bastante em profundidade.

O Arquivo Local completo segue os arts. 59 e 60 da IN 2.161/23. O simplificado segue o art. 61, que pede um conjunto mais enxuto de informações.

De forma resumida, o completo exige camadas que o simplificado não pede, em especial a descrição das atividades do contribuinte e as suas informações contábeis. Veja o comparativo:

Informação exigidaArquivo Local completo (arts. 59 e 60)Arquivo Local simplificado (art. 61)
Identificação das partes relacionadasSimSim
Tipo, características e valor das transações controladasSim, detalhado por categoriaSim
Método de preços de transferência utilizadoSim, com justificativaSim, com justificativa
Comparáveis e intervalos de valoresSim, com análise aprofundadaSim, de forma resumida
Justificativa de método e de comparáveisSimSim
Ajustes espontâneos e compensatórios do anoSimSim
Descrição das atividades do contribuinteSimNão exigido
Informações contábeis do contribuinteSimNão exigido
Análise funcional (FAR)Sim, aprofundadaSim, simplificada

Na prática, o arquivo local simplificado reduz o esforço de documentação para empresas de porte médio, que não têm a complexidade das grandes multinacionais, mantendo o essencial para comprovar a conformidade dos preços de transferência.

Prazo de entrega em 2026

O prazo do Arquivo Local acompanha o da ECF, como regra permanente: até três meses após o prazo de transmissão da ECF do ano correspondente.

Para o ano-calendário 2025, a ECF deve ser entregue até 31 de julho de 2026. Somando os três meses, o Arquivo Global e o Arquivo Local devem ser apresentados até 31 de outubro de 2026.

ObrigaçãoPrazo em 2026 (ano-calendário 2025)
Entrega da ECF31 de julho de 2026
Entrega do Arquivo Local e do Arquivo Global31 de outubro de 2026

Vale reforçar: o prazo é sempre contado a partir da ECF, então mudanças no calendário da ECF deslocam também o prazo da documentação de preços de transferência.

Como o Local File é entregue

  • A apresentação do Arquivo Local e do Arquivo Global é feita pelo e-CAC da Receita Federal, por meio de Processo Digital.
  • Os documentos vão em arquivos PDF de até 15 MB cada, com um processo aberto para cada ano-calendário.
  • Planilhas de cálculo que não podem virar PDF sem perda de informação são anexadas como arquivos não pagináveis.

O que precisa estar dentro do Local File

Informações sobre a entidade local

  • Estrutura de gestão e organograma local.
  • A quem a gerência local se reporta e onde ficam os escritórios principais.
  • Descrição geral dos negócios e da estratégia, incluindo reestruturações ou transferências de intangíveis recentes.
  • Principais concorrentes.

Informações por categoria de transação controlada

  • Contexto de cada transação (compra de bens, serviços, empréstimos, garantias, licenças, fabricação).
  • Montantes de pagamentos e recebimentos intragrupo, por categoria e por jurisdição.
  • Empresas associadas envolvidas e o relacionamento entre elas.
  • Cópias dos acordos intercompany relevantes.
  • Análise funcional (FAR): funções, ativos e riscos do contribuinte e das associadas.
  • Método de preços de transferência escolhido (PIC, PRL, MCL, MLT ou MDL) e a justificativa.
  • Identificação da parte testada e o porquê.
  • Lista de comparáveis, ajustes de comparabilidade e conclusão sobre a conformidade dos preços.

Informações financeiras de suporte

  • Demonstrações financeiras anuais da entidade local (auditadas, quando existirem).
  • Conciliação dos dados financeiros do método com as demonstrações.
  • Dados financeiros dos comparáveis e suas fontes.

Lembre-se de que a lista acima reflete o Arquivo Local completo. No simplificado, itens como a descrição das atividades do contribuinte e as informações contábeis não são exigidos, conforme o art. 61.

Pontos de atenção ao preparar o Local File

  • Mantenha o documento atualizado ao longo do ano, não só quando surge a fiscalização.
  • Garanta consistência entre o Local File, o Master File e as demais declarações.
  • Revise anualmente as informações financeiras e os benchmarks.
  • Confira se os contratos intercompany citados refletem a realidade econômica das transações.
  • Confirme, logo no início, se você se enquadra no completo ou no simplificado, pois isso muda o esforço de preparação.

Conclusão

O Local File é hoje a principal linha de defesa da empresa em uma fiscalização de preços de transferência. Bem estruturado, ele demonstra boa-fé e reduz o risco de autuação.

Saber se você se enquadra no modelo completo ou no simplificado e respeitar o prazo de 31 de outubro de 2026 são os primeiros passos para tratar a documentação como rotina, e não como uma correria de última hora.

Para conferir o texto oficial das regras, vale acessar a IN RFB nº 2.161/2023 no site da Receita Federal. Continue acompanhando o blog da Transfer Pricing Digital para se aprofundar em cada componente da documentação.

Foto de Silvio Petrini
Silvio Petrini
Com quase duas décadas de experiência na área de preços de transferência, tracei como objetivo criar uma comunidade para discussão, disseminação e desmistificação do transfer pricing no Brasil. Através deste blog, trazemos uma linguagem leve e didática, desde os principais conceitos básicos, até assuntos mais complexos envolvendo o tema. Não deixe de se inscrever em nossa newsletter, curtir, comentar, sugerir e criticar. Vamos juntos criar a maior comunidade de TP do Brasil.
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